Não seja mole. Dê duro no amor!

relacionamentosliquidos_postUma grande amiga hoje pela manhã me enviou um link e disse: “Lê, por favor. É a minha cara.” Eu li. E que texto! De fato, era a cara dela. Mas era a minha também. Me enxerguei muito naquelas palavras, e vi também grande parte dos relacionamentos dos dias de hoje.

Embora não tenha relação direta com o tema desse blog, achei que valia a pena deixar registrado esse texto incrível  da Aina Cruz, que trata, entre outras coisas, do medo humano de se machucar nos relacionamentos.

Vivemos tempos de homens frouxos, amores líquidos e mulheres vacilantes, como já diria querido Xico Sá. Nessa conjuntura, aparentemente até os mais bravos guerreiros têm se acovardado diante da possibilidade do soco. E já nos preveniu certa vez Fernando Pessoa de que nada é mais ridículo do que esquivar-se da possibilidade do soco. Porque se a vida quer te dar uma surra sua obrigação é ficar e encarar. Levar um cruzado da existência só lhe fará bem. E aqui a porrada é a metáfora necessária para entendermos qualquer grande emoção. Qualquer nó na tripa que sentimos e não controlamos. Qualquer paixão que nos divirta. No entanto, o que vemos hoje em dia é o espetáculo da diáspora acontecendo a cada instante. Enfim, não passamos de refugiados de nós mesmos. Exilados de nossos próprios sentimentos.

As pessoas andam assustadas e com medo. É tanto compromisso, obrigação, sacrifício, violência urbana, falta de poesia, burocracia, chateação, poluição, trânsito, dinheiro mal gasto, grosserias, violência visual, auditiva, sensorial, que, exaustos e amargurados, temos nos sentido cada dia menos disponíveis para o outro e suas possibilidades. Quando se ultrapassa os 25 anos de idade, a sua bagagem de frustrações já é tamanha, que parece completamente kamikaze se jogar na vida, no sonho, no amor, na alegria ou em qualquer coisa que não seja padronizada linha por linha, que fuja ao nosso controle e a nossa lógica.

Diante de tantas decepções, o comum tornou-se acovardar-se e recolher-se, ainda que, por vezes, insatisfeito, a um discurso fatalista do tipo “mas já sei como isso termina”. E assim, todas as nossas histórias passam a ser uma sombra de seu futuro escombro, ainda que no presente. De modo que colecionamos histórias que não acabam porque simplesmente nunca começam. São os achismos, as advinhações, as hiperleituras do outro e das situações, que, no fim, só nos afastam das possibilidades que ainda, apesar do nosso discurso moderninho, esperamos: o acolhimento, o encontro, a paixão, a montanha russa de sensações inexplicáveis e, depois, a calmaria, o bem-estar e (por que não?) o enlace.

Atualmente, temos uma cartilha confusa a seguir. Seus fundamentos parecem-me tão tortuosos que sempre, com dificuldade, caminhei trôpega por suas linhas. Aparentemente, funciona mais ou menos assim: quando você está interessado em alguém, você finge que não está. Se vocês estão saindo sempre juntos e você está começando a se envolver, você começa a agir com indiferença, que é para que o outro (esse, de quem você gosta) ache que você não está assim tão afim. Nunca ligue, temos what’s app e facebook para isso. Aliás, what’s app já denota fraqueza. Com as redes sociais você não precisa sequer do telefone de ninguém. Não esqueça nunca do fato de que somos todos almas traumatizadas e que não suportam mais nenhum tipo de sofrimento, porque somos demasiadamente sensíveis. E, por fim, precisamos aproveitar nossas vidas e isso, obviamente, só pode ser feito sozinho. Só que nós, as pessoas complexas, não assinamos embaixo dessa babozeira.

Essa cartilha guia os burocratas sociais e sentimentais, sempre de plantão, sempre tucanando as nossas paixões. Nós, pessoas complexas, meio intelectuais, meio de esquerda, discordamos em número e gênero. Nós somos, como Blubell, do tempo que a gente se telefonava. Nós, foliões da vida e do amor, gostamos de rasgar a fantasia e o coração.

Pessoas complexas não ficam na superfície, mergulham fundo. Quando conhecem alguém de quem gostam, se esforçam, se declaram, presenteiam, escrevem bilhetes, cartas, e-mail, recados. Pessoas complexas se apaixonam de verdade e entregam o jogo. Não têm medo de parecerem ridículas, ao contrário, orgulham-se de sê-lo. Elas fazem playlists para ouvir e pensar em seus objetos de paixão, tecem poemas cuidadosos e exagerados, são só saudade, amor e devoção. Nada é líquido e nem transitório, tudo é permanência de vontade resplandecente da companhia do outro.

Gente complexa, quando apaixonada, recalcula a rota da vida pra ficar mais tempo junto. Desmarca viagens, altera passagens, reinventa possibilidades e faz planos infindáveis. Essa gente não esmorece. Não é convencional e não desiste com facilidade. É gente que fala, faz, demonstra, vem, vai, agrada, beija, ama carinha e dane-se. Gente que não ouve os búzios, os ciganos, os orixás e nem os signos astrológicos… Nada é capaz de brecar um coração complexo e apaixonado: “danem-se os astros, serás o meu amor, serás, amor, a minha paz”.

Enfim, essa gente que sente e não tem medo de admiti-lo, é gente de fibra, gente fuerte, livre da covardia nossa de cada dia. Declaram sua paixão e seu amor sem algemas ou mordaças e estão longe, mas muito longe, de se igualarem a essa gente mole e gosmenta, verdadeiros moluscos nos jardins dos relacionamentos. A brava gente complexa representa a vara verde do amor: dobram-se muitas vezes sem nunca se quebrar.

A etnia dos complexos é feita de gente que ama, que clama, que faz amor e não faz jogo. Enfim, gente que dá duro e não é mole. E se você anda esmorecendo por aí, se anda agindo como um caramujo no jardim das possibilidades amorosas, acorda rapá! A vida é uma só: sem ensaio e sem after. E antes que o seu personagem termine a linda trama da existência a ver navios no cais, sem nunca ter embarcado numa viagem, corre atrás de quem lhe acelera o coração. Afinal, tod@s podemos ser verdadeir@s Lancelots do amor e conquistar o nosso final feliz.

Aina Cruz 

O original pode ser lido aqui.

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