Pra quem pensa que é fácil…

10437451766_4510311571_oÉ muito comum ouvir que a Cirurgia Bariátrica é um método simples pra emagrecer. Como se tirar um pedaço do estômago – meu caso, que fiz sleeve -, magicamente fizesse desaparecer com todos os quilos ganhos ao longo do tempo. O que a maioria das pessoas não sabe é que não existe milagre. A Gastroplastia ajuda sim, mas não resolve o problema. Além disso, ela pode fazer aparecer outras questões, tão ou mais graves que a obesidade.

Uma canadense publicou um relato em um grande site americano sobre como estava sendo a sua vida após a cirurgia. Ela se submeteu a um bypass gástrico e relatou a sua experiência. O texto dela é, no mínimo, comovente. Me enxerguei muito nele. Mas, ao mesmo tempo, é bastante inspirador, trazendo um novo olhar sobre a cirurgia bariátrica. Vale a leitura.

“Há nove meses eu fiz um bypass gástrico. Quando contei às pessoas que faria a cirurgia elas ficaram chocadas, afinal eu não era tão ‘grande’. Fizeram várias perguntas:

‘Você está segura de fazer algo tão drástico?’
‘Não dá para tentar reduzir o peso mais uma vez?’
‘O bypass gástrico não deveria ser apenas para quem está doente e obesa ao invés de quem está doente e cansada de ser obesa?’

Aqui está minha resposta: a decisão não foi fácil de tomar. Um ano se passou desde que meu médico sugeriu a cirurgia bariátrica até que eu fosse encaminhada ao programa. Mas, uma vez tomada a decisão, eu queria resolver este assunto. Eu queria iniciar uma nova vida.

Eu fiz tudo corretamente: pesquisei e li, fui a sessões com o psicólogo e me certifiquei de que tanto minha cabeça quanto meu coração estavam preparados para a mudança de vida significante que iria passar. Segui ao pé da letra todas as instruções dadas pelo meu cirurgião e os resultados estão sendo espetaculares.

Eu perdi quase 40 quilos e meu IMC caiu de 41 para 25, um nível normal. A porcentagem de gordura do meu corpo desceu do nível dos 40% para os 20%. Minha pressão sanguínea saiu de uma média de 126/85 para 106/55. Em resumo, eu sou ‘normal’. Pareço mais alta e cinco anos mais jovem. E estou mais feliz do que em toda minha vida.

Ainda assim há algo em minha redução de peso que me incomoda: eu deixei de ser invisível e passei a ser visível, o que é desconfortável e irritante ao mesmo tempo.

Quando eu era obesa, era também invisível. Eu poderia entrar em uma loja de alta qualidade sem ser abordada por nenhuma vendedora ou perguntada se precisava de alguma ajuda. Eu podia ir para a academia e fazer meu exercício em total isolamento, acenando com a cabeça para outras mulheres obesas, nos solidarizando com nossas camisas iguais (porque no Canadá não é certo vender mais de um modelo ou cor de camisas de ginástica tamanho grande).

Agora, quando vou a lojas, as vendedoras me bajulam. Uma vez entrei em uma em que a vendedora trouxe todos os vestidos do meu tamanho disponíveis, uma depois da outra. Isso me dá raiva: antes eu não merecia ter estilo, bom gosto, bons preços ou acessórios incríveis? Eu não merecia ser tratada como um ser humano? Esta parte da redução de peso me deixa com raiva e me lembre de nunca, nunca destratar alguém por ser obeso.

As pessoas olham para mim quando vou à academia. Não apenas as mulheres obesas, mas os homens também. Eles olham de cima abaixo e me avaliam, tentam iniciar conversas e dão dicas para os exercícios. Isso me deixa desconfortável. Não é algo normal para mim e, mesmo que meus amigos digam que isso é a forma de paquera atualmente, faz com que eu me sinta estranha, como um objeto.

Pela primeira vez em minha vida me sinto insegura. Eu deixei a irmandade dos invisíveis para um objeto de desejo masculino. Eu ainda comprimento as outras mulheres e as digo que estão indo bem, mas elas não me olham mais como uma delas, como se agora eu não pudesse mais celebrar seus esforços. Isto me entristece: perdi minhas amigas da academia.

Além disso, as pessoas bem intencionadas e gentis que não conseguem compreender o que suas palavras realmente significam:

‘Você parece tão mais jovem, alta, bonita, inteligente.’ (essa foi dura)
‘Você não irá perder mais peso, né? Você já parou, certo? Talvez você deva se alimentar mais, não é bom perder demais.’
‘Eu gostaria de fazer esta cirurgia. É uma forma tão fácil de emagrecer.’

Estes são meus amigos e colegas, pessoas com quem eu me relaciono casualmente. Eu não sei o que dizer para eles além de que meu corpo irá se acostumar, que eu como até estar satisfeita, que eu como vários tipos de comida e que algumas delas me fazem passar mal e que eu ainda estou aprendendo sobre meu novo sistema digestivo. Ou então digo que se eles pensam que é fácil, não é.

Eu tomo um monte de vitamina B12, um tipo de cálcio especial que tenho que importar dos EUA, bastante vitamina D e ácido fólico. Eu tentei ir a um café da manhã na última semana e tive que sair no meio de uma ótima conversa porque meu estômago rejeitou algo que havia comido e eu vomitei. Eu não posso comer caramelos, o que é um crime contra a humanidade. Eu não posso beber líquido muito rápido porque me dá gases e não posso comer nada muito doce porque começo a ficar enjoada e a suar como se estivesse tendo um ataque de pânico. Eu tenho sobras de pele nas coxas e abaixo do queixo. Isto não é fácil. Eu que faço parecer ser fácil.

Se eu me arrependo do bypass gástrico? Nem por um segundo. Me sinto como se a perda de peso permitisse que outras pessoas além de quem sou íntima pudesse ver o meu verdadeiro eu. Apenas levará um bom tempo para que me acostume a não ser mais invisível.”

Se quiser ler o original em inglês, clique aqui.

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